As Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais



    A Palavra de Deus nos revela a misericórdia a partir de situações concretas: “a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta com que Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo de suas vísceras” (MV n. 6). “Eterna é a sua misericórdia” dirá o salmista (Sl 136), pois reconhece que Deus tem se manifestado assim ao longo da história do povo eleito. Ser misericordioso significa ter um coração solidário com os que têm necessidade. Ela se associa a ideia que temos de compaixão e perdão. Em muitas pessoas esse agir misericordioso tem se manifestado de modo admirável, particularmente nas dificuldades sociais, econômicas ou mesmo em desastres naturais. A um sentimento comum que une as pessoas, a solidariedade e também a identificação com o sofrimento do outro, que nos faz humanos.
    É nessa perspectiva que se inserem as obras de misericórdia corporais e espirituais. Jesus dá aos seus discípulos uma ideia de comunhão ainda maior com Ele, que se fez um de nós: “Foi a mim que fizeste” (Mt 25,40). No Antigo Testamento já o profeta pensava em ações concretas pelo outro que se identificavam com o querer de Deus (cf. Is 58,6-7). Jesus se identificou com a humanidade sofredora e ao mesmo tempo nos indica o caminho do testemunho cristão, que não se situa apenas nas exigências materiais, mas também no exercício das virtudes que se fazem necessárias para vivenciar certas circunstâncias da vida, nossa e do outro.
    Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual, lembra o Papa em sua Bula de convocação (cf. n. 15). É a partir delas que nos abrimos para a experiência desse Ano Santo, despertando nossa consciência tantas vezes adormecida. Lembremos as obras de misericórdia corporal: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. Espirituais: dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo, rezar a Deus pelos vivos e defuntos (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2447).
    No ocaso da vida seremos julgados pelo amor, lembra São João da Cruz. Esse amor foi o desdobramento de muitas coisas em nossa vida para torna-lo concreto nas ações de nossa vida. A liturgia dominical nos tocará particularmente pelos relatos de Lucas nesse Tempo Comum: Jesus veio inaugurar não só um ano, mas o tempo da misericórdia, que se desdobrará na vida a na ação dos seus discípulos e discípulas, particularmente para com os mais pobres, nos lembra o evangelista. Em Mateus, Jesus se identifica com os ‘pequeninos’, e penso que entendemos que ele não se refere literalmente a crianças (Mt 10, 40.42).
    Nas Sagradas Escrituras a misericórdia se traduz como expressão de um sentimento que se experimenta diante de uma necessidade e infortúnio, assim como a ação que surge desse sentimento, significando ter compaixão e piedade, compadecer-se, sentir afeto entranhável (como uma mãe), ser compassivo, amar, ter carinho e terna emoção, apiedar-se, ajudar como fruto de uma relação de fidelidade, nas ações concretas que isso comporta. O próprio Jó traduz o que foi a sua vida de piedade (cf. Jó 31,16-17.19-21). O autor do Eclesiástico aponta um caminho (cf. Eclo 7,32-35).  No Novo Testamento encontraremos vários textos que bebem dessas mesmas fontes antigas, mas que tiveram uma clara compreensão a partir das palavras e do agir de Jesus: “Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (Mt 5,7) diz Jesus em Mateus, já apontando para o seu discurso sobre o juízo universal (Mt 25,31-46). São muitos os comentários dos Santos Padres sobre esse texto e seus significados práticos na vida cristã.
    No seu corpo, o ser humano pode experimentar a falta de recursos ou sofrer carências que são constantemente necessárias, sejam internas ou externas.  Dar de comer a quem tem fome (Mt 25,35) tornou-se uma obra eclesial derivada da ação de Jesus. Sabemos que ainda em muitos países pobres persiste a carência de alimentação e quantas vidas sucumbem diante dessa realidade. Erradicar a fome no mundo faz parte dessa nova era global para preservar a paz e da subsistência da terra, a escassez não vem tanto no aspecto material, mas na falta de recursos sociais. O gesto da Eucaristia, partilha, doação, nos recorda constantemente que há uma fome que só Jesus pode saciar, e há uma outra que com Ele podemos aprender a sanar. Dar de beber a quem tem sede (Mt 25,35). A água tem um profundo significado no mundo bíblico e hoje é discutido em seu significado ecológico no compromisso de conservação dos mananciais e do acesso a todos a água potável. Vestir o nu (Mt 25,36). Na Bíblia a nudez tem um tom negativo, seja como fruto do pecado ou da indigência de quem não tem o necessário para defender-se do frio. Repartir, como fizeram alguns santos, é um gesto de solidariedade humana. Acolher o forasteiro (Mt 25,35). Israel, em sua condição de peregrino, não deve esquecer a sua experiência e deve estar atento aos que sofrem a mesma condição. Algumas sociedades se organizam com centros de acolhimento ao forasteiro. Assistir os enfermos (Mt 25,36). A doença revela a fragilidade humana em sua finitude, por isso a Sagrada Escritura recomenda a visita, a presença e o conforto (oração, unção dos enfermos [At 28,8s; Tg 5,14s]), também a ajuda necessária. Visitar os presos (Mt 25,36). A solidão gerada pelo isolamento da sociedade deve solicitar da mesma algum gesto de solidariedade ao encarcerado. No mundo bíblico, particularmente do Novo Testamento, a comunidade cristã deve ser solidária (comunhão de oração) e presente materialmente aos encarcerados por motivos de fé, como o foram os apóstolos e o próprio Paulo. A Pastoral Carcerária leva em conta não somente o preso, mas também sua família. Por traz desse trabalho há também uma reflexão de caráter político sobre a dignidade do homem e dos direitos humanos.  Enterrar os mortos (Tb 1,17; 12,12s). Essa prática comum a muitos povos, era vista por Israel como uma obra de piedade, particularmente destacada no livro de Tobias. Quanto a cremação, mesmo preferindo a inumação, a Igreja já não faz objeção em acompanhar religiosamente os que fazem tal opção. Essa obra de misericórdia está associada à nossa fé na imortalidade do ser humano.
    Os seres humanos sofrem carências relativas à sua dimensão espiritual, daí as obras de misericórdia espirituais, que tem um valor ainda maior que as de ordem material. Se as outras obras podem ter um caráter mais comunitário ou organizativo para vivê-las, as de ordem espiritual são confiadas a cada indivíduo. A sua formulação remonta a época patrística, já com Orígenes e sua interpretação alegórica de Mt 25. Santo Agostinho estendeu tal reflexão sendo coroada no mundo acadêmico particularmente por São Tomás de Aquino. Elas estão agrupadas nos três blocos que se seguem.
- Ser vigilantes. Um olhar para fora de nós mesmos, numa atitude de compaixão e amor em relação a todos os necessitados e em favor dos ignorantes e errantes. Dar bom conselho, que conduzam para o bem e a salvação do indivíduo, tanto quanto é importante ‘ouvir’ o próprio coração ou a consciência, pedindo a Deus a sabedoria necessária. Para o nosso tempo o mais sensato é aconselhar provocando interrogações quando se está em jogo o sentida da vida e o futuro do indivíduo. Ensinar os ignorantes, vai na linha da ajuda aos que querem compreender os caminhos da fé. Corrigir o que erra, particularmente no contexto dos conflitos que se dão na comunidade de fé (Mt 18,15-17; cf. Tb 3,10), a chamada correção fraterna. Esta exige discernimento sobre o quando, o modo, o conteúdo necessário, como ajuda e não como juízo, tendo presente a regra de ouro: faça ao outro o que você gostaria que lhe fizessem.
- Ter espírito conciliador. Tal espírito se exerce como atributo fundamental do discípulo de Cristo. Consolar os tristes. O Deus consolador foi experimentado por Israel em vários momentos de sua história; Jesus é também consolador, pois oferece alívio a todos aqueles que estão cansados e esgotados (cf. Mt 11,28-30). Paulo bem o experimentou em suas tribulações. A função de consolar, na Igreja, é essencial já que testemunha o Deus que consola os pobres e aflitos. Perdoar as injúrias. O Deus que perdoa nos convida a perdoar, exorta Jesus, ao mesmo tempo que nos chama à consciência de que também somos pecadores. Só o perdão possibilita uma um novo amanhã. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo. Se Jó é o modelo de paciência no Antigo Testamento, a paciência de Jesus sublinha a sua tolerância para com o pecador. A paciência é fruto do Espírito, tal como o amor. Suportando pacientemente as limitações alheias devemos refletir sobre as nossas que também são um peso para os outros.
- Orar (rogar a Deus pelos vivos e defuntos). A oração tem profunda relação não só com Deus, mas com a vida. Ela traduz nossa comunhão eclesial que nos leva a rezar uns pelos outros, e também pelos que já partiram, pois em nenhum momento se interrompe essa união, já que cremos na ressurreição e expressa a nossa comunhão com os santos. A oração de intercessão prepara e dispõe para viver e aceitar a vontade de Deus, seja ela qual for.
    Pelas obras de misericórdia se testemunha de maneira concreta o amor preferencial pelos pobres, que nos lembra o Papa Francisco, não é opcional, mas uma questão básica do Evangelho. A opção e o amor preferencial pelos pobres implicam uma percepção e compreensão das diversas classes de pobreza às quais se referem as obras de misericórdia corporais e espirituais. A pobreza mais elementar é a de ordem física ou econômica que incluem não só as quatro primeiras obras corporais, mas também a falta de trabalho e de emprego, as doenças e incapacidades graves. Temos a pobreza cultural com o analfabetismo, escassez de oportunidades de formação comprometendo o futuro do indivíduo e gerando a exclusão social e cultural. Tal pobreza contemplam as três primeiras obras espirituais. A pobreza social situa-se no campo da solidão e isolamento, das perdas, das dificuldades de comunicação social, da discriminação e marginalização, etc. Tal realidade é contemplada nas três últimas obras corporais e na quinta e sexta espirituais. Por fim temos a pobreza espiritual e de alma, como a desorientação, o vazio interior, o desconsolo e o desespero sobre o sentido da própria existência. A justiça maior do Reino que buscamos viver e sobre a qual seremos julgados não incluem tanto os mandamentos divinos, mas o bem que somos capazes de fazer. Da doação e do serviço ao modelo de Jesus, pois a misericórdia supera a justiça.


 Pe. João Bosco Vieira Leite

Celebrar o Jubileu da Misericórdia


  Esse é o primeiro aspecto apresentado na coleção “Misericordiosos como o Pai” do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização publicado pelas editoras Paulinas e Paulus aqui no Brasil. A coleção consta de oito volumes cujos aspectos gostaria de compartilhar com vocês que buscam melhor vivenciar esse período: “Cada vez que a Igreja celebra os sacramentos, não faz mais do que tornar sempre viva e presente a misericórdia do Pai, que age através do Filho e transforma o coração dos inquietos e a matéria dos sacramentos em graça eficaz para a nossa salvação” (Celebrar a Misericórdia – Subsídio Litúrgico).
  Se há um aspecto que sempre marcou os muitos jubileus celebrados pela nossa Igreja são as celebrações litúrgicas que aconteceram em Roma, presididas pelo Santo Padre. A inovação de Francisco, que desde sempre vem nos surpreendendo em seu pontificado foi estender às Igrejas particulares, particularmente às igrejas catedrais, a abertura de uma ‘posta santa’ para um maior envolvimento das dioceses espalhadas no mundo inteiro na vivência desse Ano Santo, em comunhão com a Igreja em Roma. Cada diocese pode também indicar outras igrejas para a peregrinação dos fiéis que julgar oportuno para melhor abranger e envolver a diocese. 

- O Ano Litúrgico.

  Nesse ano litúrgico que estamos celebrando, o evangelho de Lucas (Ano C) traz especial retrato da misericórdia divina em muitos dos seus textos. Oportunamente devemos tornar ainda mais evidente a cada domingo, onde celebramos o mistério pascal, como os fiéis podem viver tais aspectos da misericórdia divina, incutindo esse pensamento da prática da caridade e do apostolado, pois nossa relação com o Senhor implica a partilha desse amor que ele faz arder em nosso coração. Nossa alegria verdadeira está em permanecer em comunhão com o seu mandamento de amor.
  A Quaresma, por sua natureza, já nos convida a uma especial contemplação da misericórdia divina com os ritos próprios desse período. O Papa nos lembra e nos pede a especial meditação das páginas da Sagrada Escritura que nos ajudam a redescobrir o rosto misericordioso de Deus. Mais à frente comentaremos sobre as parábolas da misericórdia, outro volume dessa publicação do Conselho Pontifício. A Quaresma tem como fim a celebração da Páscoa e para bem celebrá-la revivemos a necessidade da conversão como caminho de renovação espiritual, tendo a Semana Santa e o Tríduo Pascal como cume desse caminho espiritual/litúrgico que revelam o desejo salvador de Deus que se perpetua ao longo da história. Sim, seu amor é sem fim e nas águas do batismo renovamos nossa fé para experimentarmos também hoje esse amor. 
  Outras festas e solenidades do calendário litúrgico nos servirão de oportunidade para trazer à tona esse tema da misericórdia. O subsídio lembra a Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) e a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (03 de junho). A cruz como sinal eminente da misericórdia de Deus e da vitória de Cristo sobre a morte pode ganhar especial atenção durante o Ano Litúrgico. O olhar contemplativo a essa realidade íntima e essencial do Filho de Deus em seu Coração, sede da misericórdia do Pai, seja acompanhada de momentos de oração pelos sacerdotes, primeiros dispensadores da misericórdia divina, e pela vida consagrada (religiosos e religiosas). Esse ano celebra-se os cento e sessenta anos da instituição dessa festa por Pio IX, em 1856.

- A Celebração dos Sacramentos
                
  A celebração dos sacramentos nesse ano deve fazer transparecer “a misericórdia e a solicitude do Pai por cada um dos seus filhos”. Além da Eucaristia, como celebração central da fé, outros sacramentos devem ganhar especial atenção: o Batismo, a Reconciliação e sua estreita relação com o sacramento da Eucaristia, a Unção dos Enfermos.
  Nesses últimos tempos se vem enfatizando a questão do acolhimento e particular atenção aos que tentam se aproximar da comunidade após um certo período de afastamento ou mesmo a aproximação destes a partir de sua realidade existencial. A ênfase ao Ato Penitencial num maior uso da diversidade oferecida pelo Missal como chamado a celebração da misericórdia. Nas preces se façam presentes o desejo da ação da misericórdia de Deus sobre o povo, sobre os sacerdotes. O uso maior das orações Eucarísticas da reconciliação I e II. A presença da Virgem Maria, mãe de misericórdia possa se destacar pelas missas votivas que enfatizam a sua presença na caminhada eclesial tanto quanto as outras missas e orações pelas várias necessidades.

- Rezar Juntos

  Além de programar momentos de oração comunitária, ressalte-se o valor da Oração da Liturgia da Horas rezada com a comunidade particularmente a Laudes e Vésperas que ressalta a importância e o alimento espiritual que os salmos trazem à vida cristã. Particularmente se tenha a atenção para os salmos da misericórdia, dedicando-lhes, se possível algum comentário que ressalte sua riqueza.
  A Adoração ao Santíssimo, já presente na vida comunitária é um momento oportuno para implorar o perdão e a paz. A proximidade das Igrejas cristãs pode também promover momentos específicos de oração onde a procura da unidade, do respeito recíproco e da paz dos corações favoreçam sempre mais a aproximação dos irmãos que comungam da fé no mesmo Deus.
  Um outro elemento que não se pode desprezar é o que diz respeito às práticas da piedade popular. A peregrinação é um desses costumes que entram particularmente no calendário celebrativo dessa no da misericórdia, tão presente na tradição do Antigo testamento, serve de sinal para o caminho que cada pessoa faz na sua existência. As devoções que cercam o mistério da Cruz, como a Via-Sacra, particularmente na Quaresma, as devoções voltadas para Virgem Maria, Mãe do crucificado a recitação do Terço da Misericórdia, chamada no texto ‘Coroinha à Divina Misericórdia’, já que a o nome ‘terço’ diz respeito a ‘uma parte de’, o que não se aplica a essa devoção. Divulgação e recitação da Oração pelo Jubileu da Misericórdia.
  Alguns lugares e elementos ganham particular relevância em seu apelo simbólico, como o altar de nossas igrejas onde se dá o sacrifício de Cristo e o baquete eucarístico. A porta dos nossos templos e particularmente dos locais de indulgência esse ano, devem ganhar particular destaque. A fonte batismal onde a Igreja nasce e renasce constantemente para os o a tem como lugar fixo, uma melhor iluminação e adorno necessário sem esquecer a presença do Círio Pascal. O confessionário fixo deve ser também revisado como lugar que realmente favoreça a celebração penitencial tanto quanto o acolhimento do fiel.
  Recorda-se a prática da comunhão espiritual para aqueles que por algum motivo estejam impedidos de participar da Eucaristia. A prática de recolher-se em si mesmo no momento da celebração ou mesmo como prática espiritual durante o dia ou na visita ao Santíssimo Sacramento, expressões do ardente desejo de receber Jesus em seu coração.

- Lectio Divina 

  A Leitura Orante da Palavra de Deus tem ganhado particular destaque nesses últimos anos, quase como uma redescoberta desse tesouro da fé. Assim o subsídio oferece alguns trechos da Sagrada Escritura acompanhados do comentário que está no volume “As parábolas da Misericórdia” com alguns salmos para a oração, seguindo o esquema: Escutar (ler), Meditar (refletir sobre o texto servindo-se de algum comentário ou mesmo das notas vindas na Bíblia), Rezar (de modo pessoal, sobre o que esse texto diz para você ou servir-se de alguns salmos relacionados ao texto).  Ali estão: A Parábola do Filho Pródigo (Lc 15) + Salmos: 51 e 25; A Parábola do Bom Samaritano (Lc 10) + Salmos: 41 e 142; A Pecadora que lava os pés de Jesus (Lc 7) + Salmos 24 e 42.

Conclusão: O subsídio sobre a celebração do Jubileu se encerra com um rito para a abertura da Porta Santa tanto em Roma quanto nas Igrejas particulares e o rito de encerramento do Jubileu nas Igrejas particulares.   

Oração para o Jubileu da Misericórdia

Senhor Jesus Cristo,
Vós que nos ensinastes a sermos misericordiosos como o Pai celeste,
e nos dissestes que quem Vos vê, vê a Ele.
Mostrai-nos o Vosso rosto e seremos salvos.
O Vosso olhar amoroso libertou Zaqueu e Mateus da escravidão do dinheiro;
a adúltera e Madalena de colocar a felicidade apenas numa criatura;
fez Pedro chorar depois da traição
e assegurou o Paraíso ao ladrão arrependido.
Fazei que cada um de nós considere como dirigida a si mesmo as palavras que dissestes à mulher samaritana:
Se tu conhecesses o dom de Deus!
Vós sois o rosto visível do Pai invisível,
do Deus que manifesta Sua onipotência, sobretudo com o perdão e a misericórdia.
Fazei que a Igreja seja no mundo o rosto visível de Vós, Senhor, ressuscitado e na glória.
Vós quisestes que os Vossos ministros fossem também eles revestidos de fraqueza,
para sentirem justa compaixão por aqueles que estão na ignorância e no erro:
fazei que todos os que se aproximarem de cada um deles se sintam esperados, amados e perdoados por Deus.
Enviai o Vosso Espírito e consagrai-nos a todos com a Sua unção,
para que o Jubileu da Misericórdia seja um ano de graça do Senhor
e a Vossa Igreja possa, com renovado entusiasmo, levar aos pobres a alegre mensagem e
proclamar aos cativos e oprimidos a libertação;
aos cegos restaurar a vista.
Nós Vo-lo pedimos por intercessão de Maria, Mãe de Misericórdia,
a Vós que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos.
Amém.


Para viver o Ano Jubilar da Misericórdia



                Queridos irmãos e irmãs que nos acompanham através desse blog, nosso desejo é ajudá-los a vivenciar esse ano da Misericórdia partilhando com vocês alguns artigos inspirados no material que o Conselho Pontifício da Nova Evangelização preparou esse ano em que foi publicado conjuntamente pela Paulus e Paulinas. São oito livros com temáticas diferentes cujas ideias principais ou linhas de reflexão partilharemos com vocês.
                Nós já trabalhamos a Bula papal em nossos encontros de formação no ano anterior, por isso o nosso primeiro texto a ser partilhado é uma síntese da mesma para situar-nos no contexto do convite feito pelo Santo Padre. Certamente há outros subsídios na internet que podem também ser interessantes. A nossa humilde contribuição quer apenas situar-nos no contexto desse ano jubilar. Bom proveito!

                                                                                                              Pe. João Bosco Vieira Leite.



TEXTO 01
        Síntese da Bula de convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia
Vaticano, 11 de abril de 2015
Boletim da Santa Sé
Tradução: André Cunha

A Bula de convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia intitulada “vultus Misericordiae” se compõe de 25 números. O Papa Francisco descreve as principais características da misericórdia, definindo o tema, antes de tudo, à luz do rosto de Cristo. A misericórdia não é uma palavra abstrata, mas um rosto para reconhecer, contemplar e servir. A Bula se desenvolve em chave trinitária (número 6-9) e se estende na descrição da Igreja como um sinal visível da misericórdia: “A misericórdia é a viga mestra que sustenta a vida da Igreja” (n . 10).
Francisco indica as etapas principais do Jubileu. A abertura coincide com os 50 anos da conclusão do Concílio Vaticano II: “A Igreja sente a necessidade de manter vivo este evento. Para ela, iniciava um novo período de sua história. Os padres reunidos em Concílio haviam percebido intensamente, como um verdadeiro sobro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens de seu tempo de um modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que por muito tempo haviam isolado a Igreja em uma cidadela privilegiada, havia chegado o tempo de anunciar o Evangelho de um modo novo” (n. 4). A conclusão terá lugar na Solenidade litúrgica de Jesus Cristo Rei do Universo, em 20 de novembro de 2016. Neste dia, fechando a Porta Santa, teremos antes de tudo, sentimentos de gratidão e apreço à Santíssima Trindade por haver-nos concedido um tempo extraordinário de graça. Encomendaremos a vida da Igreja, da humanidade inteira e o imenso cosmos ao Senhorio de Cristo, esperando que difunda sua misericórdia como o orvalho da manhã para uma história fecunda, que ainda será construída com o compromisso de todos num futuro próximo.
Uma particularidade deste Ano Santo é que não será celebrado só em Roma, mas em todas as dioceses do mundo. A Porta Santa será aberta pelo Papa na Basílica de São Pedro em 8 de dezembro e no domingo seguinte em todas as Igrejas do mundo. Outra novidade é que o Papa dará a oportunidade de abrir a Porta Santa também em todos os Santuários, destino de muitos peregrinos.
O Papa Francisco recorda o ensinamento de São João XXIII que fala da “medicina da Misericórdia” e Paulo VI que identificou a espiritualidade do Vaticano II como a do Bom Samaritano. A Bula também explica alguns aspectos importantes do Jubileu: o primeiro é o lema “Misericordiosos como o Pai”, a continuação do sentido da peregrinação e sobretudo a necessidade do perdão. O tema particular que interessa ao Papa se encontra no número 15: as obras de misericórdia espirituais e corporais devem redescobrir-se “para despertar nossa consciência, muitas vezes adormecida frente ao drama da pobreza, e para entrar ainda mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina”. Outra indicação faz relação com a Quaresma com o envio dos “Missionários da Misericórdia” (n. 18). Nova e original iniciativa, com a qual o Papa quer ressaltar de forma mais concreta seu cuidado pastoral. O Papa trata nos números 20 e 21 o tema da relação entre justiça e misericórdia, demonstrando que não se detém a uma visão legalista, mas aponta a um caminho que desemboca no amor misericordioso.
O número 19 é um firme lamento contra o crime organizado e contra as pessoas “promotoras ou cúmplices” da corrupção. São palavras muito fortes com as quais o Papa denuncia esta “chaga apodrecida” e insiste para que neste Ano Santo haja uma verdadeira conversão: “Este é o tempo oportuno para mudar de vida! Este é o tempo para deixar tocar o coração. Diante de tantos crimes cometidos, escuta o choro de todas as pessoas depredadas por vocês na vida, na família, nos afetos e na dignidade. Seguir como estais é só fonte de arrogância, de ilusão e de tristeza. A verdadeira vida é algo bem distinto do que agora pensais. O Papa os estende a mão. Está disposto a ouvi-los. Basta somente que acolhais o apelo à conversão e vos submetais à justiça enquanto a Igreja vos oferece misericórdia” (n. 19).
A referência à Indulgência como tema tradicional do Jubileu se expressa no número 22. Um último aspecto original é o da misericórdia como tema comum entre os Judeus e Muçulmanos: “Este ano Jubilar vivido na misericórdia pode favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; nos faça mais abertos ao diálogo para conhecê-las e compreendê-las melhor; elimine toda forma de impasse e desprezo, e leve qualquer forma de violência e de discriminação” (n. 23).
O desejo do Papa Francisco é que este Ano, vivido também no compartilhamento da misericórdia de Deus, possa converter-se em uma oportunidade para “viver no dia a dia a misericórdia que desde sempre o Pai dispensa a nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca se cansa de abrir a porta de Seu coração para repetir que nos ama e quer compartilhar conosco a sua vida… […] Que este Ano Jubilar da Igreja se converta em eco da Palavra de Deus que ressoa forte e decidida com palavra e gesto de perdão, de suporte, de ajuda, de amor. Nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente em confortar e perdoar. A Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem descanso: ‘Lembra-te, Senhor, de tua misericórdia e de teu amor; que são eternos.’”